domingo, 13 de março de 2016

Gestos e postura ajudam a detectar e avaliar depressão

http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2016/03/1749401-gestos-e-postura-ajudam-a-detectar-e-avaliar-depressao.shtml 

 





Você entra no consultório. Senta. Um pouco de conversa e de observação e o profissional já sabe: é depressão. Psicólogos e psiquiatras frequentemente se valem de uma certa intuição baseada em sua experiência –também conhecida como "olho clínico"– para bater o martelo sobre o diagnóstico de seus pacientes.
"De frente com o paciente, percebendo a forma como ele olha pra você, é possível ter uma intuição diagnóstica. Há um retardamento, os movimentos são lentos e custosos e geralmente refletem bem o que a pessoa está sentindo", afirma o psiquiatra e professor titular da USP Wagner Gattaz. "Mas, muitas vezes a gente se engana também."
O que faltava era, basicamente, um corpo mais científico ao tal do "olhar clínico". E é aí que a psicóloga e pesquisadora Juliana Fiquer, também da USP, resolveu atuar, criando um registro dos comportamentos que ajudam a dizer se a pessoa tem depressão e se o tratamento funcionou.
Em seu doutorado, Juliana entrevistou e filmou pacientes (eram 40 no total) com quadro grave de depressão (e que estavam passando por um tratamento experimental de estimulação elétrica transcraniana). Os comportamentos foram analisados e quantificados por pesquisadores independentes que não sabiam do estado clínico dos pacientes.
A tática para dessensibilizar o paciente, ou seja, minimizar o peso de ele estar sendo filmado, consistia em deixar a câmera gravando desde antes da entrevista, enquanto alguns formulários eram respondidos.
Para os resultados serem de boa qualidade (ou seja, reprodutíveis), era importante também que os pacientes não soubessem precisamente qual seria a finalidade da gravação –registrar suas expressões facial e corporal. Por outro lado, a maioria deles –provavelmente por causa da depressão–, nem perguntava a respeito das filmagens, relata Juliana.
EXPRESSÕES
Entre os principais achados está que a intensidade (maior ou menor) de alguns comportamentos está diretamente associada à gravidade do quadro de depressão.
Um bom exemplo disso é a gesticulação ilustrativa -usada quando se quer "mostrar coisas" com as mãos. Na depressão esses movimentos tendem a sumir. O gesto "contrário", repetitivo e sem um objetivo óbvio (como manusear as próprias mãos) se tornam mais frequentes.
Alguns sinais também se mostraram bons indicadores de que o tratamento surtia efeito. Alguns exemplos: o choro diminuiu, o contato ocular aumentou e as testas se tornaram menos franzidas.
Mas nem sempre a resposta é fácil: pode haver sinais aparentemente contraditórios, como sorrisos e falas misturados com gesticulações sem sentido, como na esquizofrenia, de acordo com Gattaz. O quadro em que os gestos não condizem com a fala é chamado de paramimia. No caso do mal de Parkinson, por exemplo, há uma amimia, ou seja, perda dos movimentos.
Segundo Gattaz, que já viveu na Alemanha, sinais não verbais são mais difíceis de se perceber naquele povo em comparação aos latinos. "De repente a língua mais rica diminui a importância da mímica", filosofa.
Não é exatamente isso que a pesquisa de Juliana indica. Parte de seus resultados foi publicada na revista especializada "Journal of Affective Disorders". Em outra fase de sua pesquisa, ainda inédita, houve uma colaboração com holandeses na qual foi realizada uma avaliação parecida e com resultados na mesma direção -a avaliação não verbal, portanto, não é algo que valeria somente para um país ou etnia em particular. "Na verdade, os primeiros estudos dessa área foram feitos nos EUA e em alguns países da Europa", afirma a psicóloga.
A ideia de usar a comunicação não verbal não é substituir o médico ou psicólogo: nem o relato verbal. "É uma ferramenta para saber mais sobre o paciente. Não é tratamento", diz a pesquisadora. "Às vezes há gestos que não batem com o relato. E podemos atuar em cima disso."
Ao saber, por exemplo, para quais comportamentos o psiquiatra ou psicólogo deve prestar mais atenção, "pode-se levar coisas que não estão tão claras para o território do pensamento e da consciência e trazer aquilo para o verbal", conclui ela.

quinta-feira, 3 de março de 2016

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

PABLO VILLAÇA escreve sobre depressão.


A depressão se manifesta de diversas formas: a sensação profunda de tristeza, desânimo e desesperança é, talvez, a mais comum, mas não a única delas. Inimiga sorrateira e hábil em desenvolver novas estratégias quando encontra um de seus caminhos impedido, a depressão é um camaleão cujos disfarces são as diferentes maneiras que adota para destruir suas vítimas.
Ao longo dos anos, escrevi diversas vezes sobre minhas experiências com a doença. Nos últimos meses, porém, o assunto sumiu de meus textos por um motivo óbvio: depois de encontrar uma nova (e excelente) psiquiatra e dar início a um tratamento com novos medicamentos, experimentei uma melhora considerável.
(Sim, já passei por períodos de remissão que invariavelmente acabaram sendo frustrados pelo retorno dos sintomas e, portanto, sempre encaro as melhoras com um otimismo cauteloso. Desde que escrevi este texto -https://www.facebook.com/pablovillaca01/posts/693529250752304 -, no qual comentava um novo tratamento bem sucedido, sofri uma piora significativa e voltei a buscar uma nova médica.)
No entanto, são cinco da manhã e aqui estou novamente escrevendo sobre minha velha adversária.
Parte de mim, confesso, admira a perseverança deste mal e sua inteligência (se é que posso atribuir racionalidade a um desequilíbrio químico): embora a tristeza característica não tenha retornado, nas últimas semanas venho percebendo um novo tipo de manifestação que vem se tornando mais intensa.
Pensamentos fatalistas recorrentes.
"E se algo terrível acontecer com as crianças?"; "Como será que morrerei? Está próximo?"; "Tenho trocado palavras e nomes; será sinal de Alzheimer precoce?"; "Minha carreira está chegando ao fim? O que farei quando chegar?"; e por aí afora.
Este tipo de pensamento obsessivo e pavoroso pode me atingir nos momentos mais inesperados - e quem convive comigo provavelmente já deve ter me visto sacudindo subitamente a cabeça como se algo tivesse entrado em meus olhos ou se uma mosca estivesse me perturbando. É um gesto quase involuntário; uma manifestação física do esforço para arremessar aquelas imagens para fora da mente. O curioso - e o indício de como transtornos obsessivo-compulsivos podem se desenvolver - é que funciona: ao menos por alguns instantes, o pensamento se dissipa.
Até retornar com uma imagem ainda mais aterrorizante.
A partir daí, vêm "ideias" brilhantes do tipo "Se eu me matar, não estarei aqui para sofrer caso algo ocorra com alguém que amo" - o que, por sua vez, me obriga a buscar razões contra o suicídio.
Porém, ainda que a frase anterior soe dramática, como se eu estivesse sempre tentando me convencer a não me matar, não há razão para alarme. Não estou prestes a. É um conflito momentâneo; ao contrário do que descrevi no post que linkei mais acima, não me encontro mais num estado psicológico/emocional propenso ao autoextermínio.
Não, o objetivo deste post é duplo: o primeiro, egoísta, é permitir que funcione como um grande sacudir de cabeça, expurgando com mais eficiência as ideias que me fizeram rolar na cama por horas até finalmente desistir de dormir e levantar às cinco da manhã; o segundo é descrever um processo que, estou certo, é comum a muitos companheiros de depressão e, assim, ressaltar mais uma vez que não estão sozinhos.
E lembrar que buscar ajuda profissional é sempre a maneira mais eficaz de enfrentar a doença.
Sigo com os pés firmes no chão. Torço para que vocês também. A luta vale a pena.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Depressão Sazonal de verão Summer Depression


I have on my bookshelf a small volume, published in 1879, called “The Summer and its Diseases,” by James C. Wilson, M.D., then of the Medical College in Philadelphia. The good doctor notes wisely in the foreword that:
“Man, born to sorrow as the sparks fly upwards, finds some pain in every pleasure, some sadness in all joy, some fear in every hope. The changing seasons remind him that the seed is not quickened except to die, and each one brings to him, as it comes with its many blessings, some new suffering and sickness.”
As a physician who has studied the effects of the seasons on human beings for years, I agree with Dr. Wilson. But as a psychiatrist, I see different types of afflictions that those listed his book, which include sunstroke, dysentery, cholera, fevers, allergies and skin problems. Instead, I see summer depression, mania, anger problems and, of all things, winter- seasonal affective disorder in summer. Here is a quick round-up of these maladies.
Shortly after we identified Winter-SAD, my colleagues and I identified a summer version of the condition, in which people become depressed as the days get longer and hotter, and feel better in the winter. We still don’t know why the summer triggers depressions regularly in some people – perhaps it’s the intense heat or maybe too much light. People with this type of depression often have symptoms that are different from those with Winter-SAD. They often lose appetite, sleep and weight, and are agitated rather than lethargic – all opposite to the typical symptoms of Winter-SAD. In some ways the summer-SAD is more dangerous than the winter version because those who suffer this malady are more likely to feel suicidal (which may go along with their feelings of agitation). Although it may be helpful to avoid heat (for example, by staying in air-conditioned rooms) and too much light (for example, wearing wrap-around dark glasses), the mainstay of treatment is starting antidepressant medications early and staying ahead of the curve as the summer progresses, thereby preventing the depression from deepening. Needless to say, this necessarily involves getting a qualified professional on board.
People with bipolar disorder tend to have problems with being over activated, irritable and angry in the summer. Although many people think of mania as a state of excessive elation and exuberance – which may occur – that is often not the case. The agitation, restlessness and sleep loss that occur with hypomania (a less severe form of mania) often come along with a short fuse and a bad temper – or suppressed anger in those able to restrain themselves.
Again, avoiding intense light is a key form of treatment (short of medication, which may also be necessary). Once again, this can be accomplished by dark glasses, along with avoiding light in the early morning and late evening. Blackout curtains may be helpful to prevent the rays of dawn from waking people too early; and dimming indoor lights (no more than one 60-watt bedside lamp and no bright computer screens) after 9 PM may also be helpful.
Winter-SAD in Summertime
This summer has introduced me to a form of summer distress that I had not previously considered – Winter SAD in summer – an apparent paradox, which I first encountered when Miranda, a long-standing patient of mine, stopped by for a routine office visit.
Light-Therapy
Miranda is a professional in her mid-fifties, who has suffered for many years from typical seasonal affective disorder (SAD) between October and March. Since it is now high summer, I expected her to be doing well, but I was wrong. She complained of all the typical symptoms of her winter depressions: glum mood, low energy, a desire to curl up on her couch in front of the TV, and a serious case of the munchies – “everything that isn’t nailed down,” as she put it. To make matters worse, she said, although she expects to feel this way in the winter and has a whole regimen in place for dealing with her winter SAD symptoms, but she was utterly unprepared for them at this time of year when she typically feels at her best.
“What could be going on?” We both wondered.
Now, I have certainly seen winter SAD occur in summer or at any time of year when the weather is unseasonably foul. That’s how many people with SAD must be feeling in London, where they have been having one of the rainiest summers in living memory. That and all the unpleasantness of having the Olympic Games in one’s back yard is causing many Britons to complain much more than usual, according to a recent article in the New York Times.
Here in the United States, however, we are having one of the hottest summers on record with blazing cloudless skies. So, why should anyone be developing SAD? As I thought about the matter and discussed it with Miranda, the reason became clear. Miranda could not tolerate the hot days, so she was spending her time mainly indoors out of the sunlight. To make matters worse, she was keeping the blinds drawn so as not put too much strain on the air conditioning system. In other words, she was creating winter lighting conditions in mid-summer. To test this theory, I suggested that Miranda use light therapy each morning as she does in the winter, though not for as long (10-15 minutes instead of 30-45 minutes). It worked, and within a few days, Miranda felt her happy summer self again. She plans to keep using the lights until outdoor temperatures settle down and she is able to get outdoors again.
Bottom line for those of you with winter-SAD: It is not simply a winter condition: It is a light-deficiency condition. Any time the light levels fall too low – even in midsummer – you are at risk for symptoms.
Wishing you Light and Transcendence,
Norman
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sábado, 10 de outubro de 2015

DEPRESSÃO, A VISITA DA VELHA SENHORA DE LUIZ CAVERSAN



luiz caversan
É jornalista e consultor na área de comunicação corporativa. Escreve aos sábados.
LUIZ CAVERSAN






Depressão, a visita da 'velha senhora'

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Um amigo querido é quem chama a depressão de "velha senhora". Praticamente uma bruxa, feia, malcheirosa, cabelos amarfanhados, maltrapilha, unhas sujas e exageradamente grandes, dentes ruins, hálito horroroso.
— E de repente sentiu na nuca o hálito fétido e gélido da velha senhora...
Escrevi esta frase tempos atrás, inspirado naquele amigo; faria parte, a frase, de um livro que nunca foi finalizado; há partes, trechos, excertos e uma preguiça (ou recusa...) imensa de ir em frente.
A ideia do livro surgiu quando estava no auge da depressão, e me convenci de que uma das táticas imprescindíveis para enfrentar esta doença é falando sobre ela -o que tenho feito, na verdade, inclusive aqui neste espaço com frequência.
Mas, naquele momento de dor e angústia, escrever sobre "aquilo" seria como limpar a cela em que estava sendo torturado -este pensamento só surgiu também tempos depois, porque quando você está deprimido de verdade, dificilmente formula frases supostamente criativas como esta...
O fato é que à medida que fui me afastando dos eventos mais intensos da depressão -numa parábola que começou lá para 1998/99 e vem até hoje, com o "melhores momentos" acontecendo entre 2002 e 2006-, mais fui desanimando da ideia de um-livro-na-primeira-pessoa-sobre-depressão.
No entanto, acredito que compartilhar experiências, acompanhar os novos tratamentos, estimular o autoconhecimento sejam práticas que ajudam a quem possa estar enfrentando o problema e a mim mesmo, uma vez que as visitas da "velha senhora" prosseguem, embora esparsas. Mas prosseguem, e imagino que terei de conviver com elas para sempre...
Fui diagnosticado como deprimido, com características de transtorno bipolar, pelo dr. Jair Mari, excelente médico, professor da Unifesp e grande cara, quando o procurei, em 1998, porque estava bebendo demais. Morava no Rio, tinha um ótimo emprego, uma boa vida, casamento ok, amigos bacanas, aquela cidade encantadora, mas... Mas, de uma hora para outra, em vez de me encantar e continuar a me envolver com a alegria dos sambas e tais, comecei a ficar mais para "tristeza não tem fim/felicidade sim...", e nem sabia por quê.
Ficava triste a maior parte do tempo, angústia tremenda, pensamentos repetitivos, ansiedades, medos inexplicáveis, incapacidade de concentração, inapetência sexual, irritabilidade extrema, sono, muito sono intercalado com noites em branco; e a bebida estava ali como a falsa amiga que te aconselha certo na hora errada. Ou errado na hora certa, sabe-se lá...
Depois de algumas sessões com o dr. Jair, o veredicto: você não é alcoólatra, você está deprimido e precisa se tratar.
Grande merda, pensei, pelo menos encher a cara é algo que as pessoas conhecem e às vezes entendem e no geral toleram, principalmente no meio em que vivia. Mas, depressão? Ninguém sabia (será que hoje sabe?) direito o que é, como explicar isso pras pessoas na virada do milênio, quando, sim, ela já se definia como a doença da modernidade, mas permanecia envolta em desconhecimentos, ignorâncias e preconceitos, e "remédio de tarja preta" era (será que não é mais?) sinônimo de fraqueza e/ou fracasso social?
Por conta desse desentendimento, do medo e da culpa, os primeiros tempos foram de retração, sofria escondido, tentava fazer de conta que as coisas estavam bem e procurava levar a vida.
Mas as coisas não estavam, a vida não ia, e assim foi-se um casamento de 13 anos, um trabalho de 21 anos, entre outras perdas e danos. Abrindo-se, no entanto, uma avenida de possibilidades de reconstrução, mesmo porque estava tudo destruído à minha volta.
Seguiram-se anos de busca, tratamentos insistência, vitórias, derrotas, muita informação nova foi surgindo (sobretudo e principalmente por meio do livro "O Demônio do Meio e Dia - Uma Anatomia da Depressão", de Andrew Solomon, uma obra fantástica, esclarecedora), e pude perceber que o universo de pessoas com as quais eu me identificava -e que se identificavam com meus relatos- era infinitamente maior do que se supunha, do que eu imaginava e do que a própria sociedade admitia -afinal, somos uma sociedade em é preciso vencer sempre, certo?
Ser deprimido no país da alegria é fogo...
A experiência na pele dos últimos dez anos (e contando...) mostrou três realidades muito significativas: foi possível perceber que, se não consegue curar inteiramente seu transtorno, você pode mantê-lo sob controle e conviver razoavelmente bem com seus sintomas; que aumentou significativamente o número de substâncias às quais se pode recorrer para os tratamentos (desde a fluoxetina até a venlafaxina, passando por paroxetina, citalopran, certralina, bupropiona e outras), assim como constatou-se que o suporte psicológico com terapia da palavra é não apenas satisfatória, mas fundamental na estratégia do enfrentamento dos dias mais "nublados" e tenebrosos. E que já se pode falar mais abertamente da depressão sem que a pessoa à sua frente desvie o olhar ou olhe para você como se estivesse a caminho do cadafalso, com pena e comiseração, senão com desprezo.
Sim, a "velha senhora" ronda, vai e volta e ok que ela teime em fazer suas visitas periódicas. O importante é aprender a detectar os sinais da sua aproximação, perceber quando ela se prepara para atacar, imiscuindo-se, e fortalecer as portas e janela da "casa".
Afinal, esta é a única casa que temos para habitar...